A vasculite é um grupo de doenças caracterizadas pela inflamação dos vasos sanguíneos — artérias, veias e capilares. Essa inflamação pode comprometer o fluxo sanguíneo para órgãos vitais, causando danos teciduais graves e até irreversíveis. O angiologista e cirurgião vascular tem papel fundamental tanto no diagnóstico da vasculite quanto no manejo das complicações vasculares que essa condição pode causar.

O que é Vasculite e Como Afeta os Vasos Sanguíneos?

Na vasculite, o sistema imunológico ataca erroneamente a parede dos vasos sanguíneos, desencadeando um processo inflamatório que pode espessar, enfraquecer, estreitar ou obstruir os vasos. Dependendo do tamanho e da localização dos vasos afetados, os sintomas e as complicações variam enormemente — desde manifestações cutâneas leves até falência de órgãos como rins, pulmões e cérebro.

As vasculites podem ser primárias (quando a inflamação vascular é a doença em si, sem causa identificável) ou secundárias (quando ocorrem como manifestação de outra doença, como lúpus eritematoso sistêmico, artrite reumatoide ou hepatite viral). O diagnóstico preciso é fundamental para o tratamento adequado e para a prevenção de complicações vasculares graves.

1. Arterite de Células Gigantes (Arterite Temporal)

A arterite de células gigantes, também conhecida como arterite temporal, é a vasculite mais comum em pessoas acima de 50 anos. Afeta principalmente as artérias de grande e médio calibre, especialmente a artéria temporal (localizada na têmpora) e os ramos da aorta. Os sintomas característicos incluem dor de cabeça intensa e pulsátil na região temporal, dor ao mastigar (claudicação mandibular), sensibilidade ao toque no couro cabeludo e, em casos graves, perda de visão súbita — uma emergência oftalmológica.

A principal complicação temida é a cegueira irreversível, causada pelo envolvimento das artérias que irrigam o nervo óptico. Por isso, a suspeita clínica deve motivar tratamento imediato com corticosteroides, mesmo antes da confirmação diagnóstica por biópsia da artéria temporal. A avaliação vascular com ultrassom doppler das artérias temporais é uma ferramenta diagnóstica não invasiva de crescente utilização.

2. Poliarterite Nodosa

A poliarterite nodosa (PAN) é uma vasculite que afeta artérias de médio calibre, poupando os capilares e as pequenas artérias. Acomete principalmente os vasos dos rins, do trato gastrointestinal, da pele, dos nervos periféricos e dos músculos. Os sintomas são variados: febre, perda de peso, dores musculares e articulares, neuropatia periférica (formigamento e fraqueza nos membros), hipertensão arterial de difícil controle e manifestações cutâneas como nódulos e úlceras.

A PAN está frequentemente associada à infecção crônica pelo vírus da hepatite B. O diagnóstico é estabelecido por biópsia tecidual ou angiografia, que pode revelar os característicos aneurismas e estenoses nas artérias de médio calibre. O angiologista contribui na avaliação do comprometimento vascular sistêmico e no acompanhamento das complicações isquêmicas.

3. Granulomatose com Poliangiite (Wegener)

A granulomatose com poliangiite, anteriormente conhecida como granulomatose de Wegener, é uma vasculite de pequenos e médios vasos que classicamente afeta o trato respiratório superior (narinas, seios paranasais), os pulmões e os rins. Os sintomas incluem sinusite crônica e refratária, úlceras nasais, epistaxe (sangramento nasal) frequente, tosse persistente, hemoptise (tosse com sangue) e glomerulonefrite rapidamente progressiva que pode levar à insuficiência renal.

Essa vasculite está associada a anticorpos ANCA (anticorpos anticitoplasma de neutrófilos) positivos — especialmente o padrão c-ANCA/PR3 — que são fundamentais para o diagnóstico. Sem tratamento adequado, a granulomatose com poliangiite tem evolução grave e potencialmente fatal em curto prazo. O tratamento combina corticosteroides e imunossupressores como rituximabe ou ciclofosfamida.

4. Doença de Kawasaki

A doença de Kawasaki é uma vasculite que afeta preferencialmente crianças menores de 5 anos e acomete principalmente as artérias coronárias, podendo causar aneurismas coronarianos e infarto do miocárdio em crianças pequenas. Os critérios diagnósticos clássicos incluem febre persistente por mais de 5 dias, conjuntivite bilateral, lesões na mucosa oral (lábios vermelhos e rachados, língua em framboesa), erupção cutânea, vermelhidão e descamação das palmas das mãos e plantas dos pés.

O tratamento com imunoglobulina intravenosa e aspirina, quando iniciado precocemente (nos primeiros 10 dias de febre), reduz significativamente o risco de formação de aneurismas coronarianos. O acompanhamento cardiológico e vascular a longo prazo é essencial para pacientes que desenvolveram alterações coronarianas.

5. Púrpura de Henoch-Schönlein (Vasculite por IgA)

A púrpura de Henoch-Schönlein, atualmente denominada vasculite por IgA, é a vasculite mais comum na infância. Caracteriza-se pelo depósito de imunoglobulina A (IgA) nas paredes dos pequenos vasos, causando inflamação. A tétrade clássica inclui púrpura palpável (manchas avermelhadas que não somem à pressão, predominantes nos membros inferiores e nádegas), artralgia ou artrite, dor abdominal e comprometimento renal (nefrite por IgA).

Em crianças, a evolução costuma ser benigna e autolimitada. Em adultos, entretanto, a vasculite por IgA tende a ser mais grave, com maior risco de envolvimento renal significativo. O acompanhamento com avaliação da função renal e pressão arterial é essencial, e casos graves podem requerer imunossupressão. O angiologista avalia o comprometimento vascular periférico quando presente.

6. Vasculite Urticariforme

A vasculite urticariforme é caracterizada por lesões na pele que se assemelham à urticária comum (placas avermelhadas e pruriginosas), mas que persistem por mais de 24 horas, ao contrário da urticária clássica que dura poucas horas. Essas lesões representam a inflamação dos pequenos vasos dérmicos e podem deixar manchas acastanhadas residuais após a resolução.

Pode ser idiopática (sem causa identificável) ou associada a doenças autoimunes, infecções virais, medicamentos ou hipersensibilidade ao frio ou ao sol. A forma normocomplementêmica geralmente tem evolução benigna, enquanto a forma hipocomplementêmica (com baixo complemento sérico) está mais frequentemente associada a doenças sistêmicas graves como o lúpus eritematoso sistêmico. A avaliação vascular é importante para descartar comprometimento de vasos de maior calibre.

7. Arterite de Takayasu

A arterite de Takayasu é uma vasculite de grandes vasos que afeta predominantemente mulheres jovens (abaixo de 40 anos), atacando a aorta e seus ramos principais. É também conhecida como “doença sem pulso” porque a inflamação e o consequente estreitamento da aorta e dos seus ramos pode reduzir ou abolir o pulso nos membros superiores. Os sintomas incluem diferença de pressão arterial entre os dois braços, sopros vasculares à ausculta, claudicação dos membros superiores, tontura, alterações visuais e sintomas de isquemia cerebral.

O angiologista tem papel central no diagnóstico e no acompanhamento da arterite de Takayasu, realizando o mapeamento vascular completo com doppler e angiotomografia. Quando há estenoses significativas causando isquemia de órgãos, procedimentos de revascularização como bypass arterial ou angioplastia podem ser necessários, sempre em conjunto com o tratamento imunossupressor.

Diagnóstico da Vasculite pelo Angiologista

O diagnóstico das vasculites requer uma abordagem sistemática que combina a história clínica detalhada, o exame físico vascular completo, exames laboratoriais (hemograma, provas inflamatórias, autoanticorpos como ANCA, ANA, anti-DNA, complemento sérico, sorologias para hepatites B e C) e exames de imagem. O angiologista utiliza o ultrassom doppler, a angiotomografia e a ressonância magnética para avaliar o comprometimento dos vasos sanguíneos.

Em casos selecionados, a biópsia da parede vascular ou do tecido afetado é necessária para confirmação diagnóstica e identificação do padrão histopatológico. De acordo com a Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular (SBACV), o diagnóstico precoce das vasculites é fundamental para evitar danos vasculares irreversíveis aos órgãos vitais.

Tratamento e Acompanhamento Vascular nas Vasculites

O tratamento das vasculites envolve tipicamente o controle da inflamação com medicamentos imunossupressores (corticosteroides, azatioprina, metotrexate, rituximabe, micofenolato de mofetil, entre outros), sempre orientado pelo reumatologista ou pelo especialista na doença de base. O papel do angiologista é complementar e essencial: avaliar o estado dos vasos sanguíneos, identificar estenoses ou aneurismas, tratar complicações isquêmicas e realizar procedimentos de revascularização quando indicados.

O acompanhamento vascular regular com doppler arterial e venoso permite monitorar a progressão ou a remissão das lesões vasculares e detectar precocemente complicações como trombose, aneurismas e isquemia orgânica. Se você apresenta sintomas sugestivos de vasculite — como manchas na pele, perda de pulso, diferença de pressão entre os braços ou dor isquêmica nos membros — agende uma avaliação com o Dr. Antônio Queiróz para um diagnóstico preciso e tratamento adequado.

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